
O crime no Carnaval de 2006
Na Sexta-feira de Carnaval de 2006, enquanto o Rio de Janeiro celebrava a festa popular, um audacioso roubo de obras de arte ocorria no Museu da Chácara do Céu, em Santa Tereza. Quadros de Claude Monet, Salvador Dalí, Pablo Picasso e Henri Matisse, avaliados em mais de US$ 10 milhões na época, foram levados em plena folia.
O roubo, considerado um dos maiores do Brasil e figurando entre os dez maiores do mundo segundo o FBI, aconteceu em meio ao Bloco das Carmelitas. Criminosos pularam os muros do museu e desapareceram pelas ruas do bairro com as cinco valiosas peças. As obras e os assaltantes jamais foram encontrados.
Nesta semana, após 20 anos, o crime prescreve oficialmente, o que significa que os responsáveis não poderão mais ser punidos pela Justiça.
Suspeitos e investigações infrutíferas
Ao longo das duas décadas, três nomes foram apontados como principais suspeitos: Paulo Gessé, Michel Cohen e Patrice Rouge, todos com conexões com o mercado de arte. As investigações, no entanto, não reuniram provas concretas para a condenação.
Paulo Gessé chegou a ter a residência vasculhada e foi preso, mas a Justiça entendeu a falta de elementos para torná-lo réu. Michel Cohen, negociador francês de pinturas, já era procurado nos Estados Unidos por fraudes e conseguiu fugir da polícia no Rio antes mesmo do roubo. Patrice Rouge, artesão francês radicado no Brasil, negou veementemente qualquer envolvimento, afirmando que estava na França na época do crime e que sua inclusão na lista de suspeitos foi baseada em denúncias anônimas.
Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, Patrice Rouge declarou: “Essa história toda é completamente absurda. Uma pessoa faz uma denúncia anônima e o meu nome é jogado no meio de tudo isso”. Ele relatou o prejuízo pessoal e profissional causado pelas acusações.
“A Arte do Descaso”: um retrato da negligência
A jornalista Cristina Tardáguila, autora do livro “A Arte do Descaso” (2015), aponta um “desinteresse institucional generalizado” na solução do crime. Segundo ela, houve falhas desde a diretoria do museu e a polícia até o governo federal e a mídia.
O livro detalha uma série de erros, como a demora da primeira patrulha policial em chegar ao museu, a falta de preservação de provas no local e a falha na comunicação das características das obras roubadas às autoridades.
Um dos episódios mais emblemáticos de descaso foi o desaparecimento do inquérito policial, que só foi encontrado em 2015, entre pilhas de papel. O processo criminal principal foi arquivado provisoriamente devido à “falta de autoria definida”.
Reforço na segurança e perda cultural
O Museu Chácara do Céu implementou reforços significativos em sua segurança desde o roubo. Atualmente, o museu fecha nos dias de Carnaval e outros eventos em Santa Tereza. O sistema de vigilância foi modernizado, com monitoramento 24 horas e câmeras em todos os pontos do prédio e arredores.
A diretora do museu, Vivian Horta, afirma que a segurança é uma prioridade e que o roubo de 2006 é citado como referência para o treinamento da equipe.
Especialistas como Helder Oliveira lamentam a perda cultural irreparável para a sociedade. “Essas obras estavam disponíveis para todas as pessoas contemplarem e estudarem. Eram inúmeras possibilidades de educação e de pesquisa”, ressalta Oliveira.
A perda de obras únicas como “Marine” (Monet), “Le Jardin du Luxembourg” (Matisse), “La Danse” (Picasso), “Homme d’une Complexion Malsaine Écoutant le Bruit de la Mer sur les Deux Balcons” (Dalí) e o livro de gravuras “Toros” (Picasso) representa um prejuízo inestimável ao patrimônio cultural brasileiro.
Apesar da prescrição do crime, o museu mantém a esperança de que as obras um dia sejam encontradas e retornem ao seu acervo.
Com informações da Agência Brasil






