Cuidado como responsabilidade feminina no Brasil

Um estudo recente aponta que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres. Essa realidade, segundo a pesquisadora Valquiria Elita Renk, professora da PUCPR, tem fortes raízes culturais e impacta diretamente a vida profissional e educacional das mulheres. Elas frequentemente interrompem seus estudos e carreiras para se dedicar aos cuidados de familiares, um trabalho contínuo e muitas vezes invisível.

Políticas de apoio: um contraste internacional

Enquanto o Brasil ainda engatinha na implementação de políticas de apoio, outros países já oferecem suporte aos cuidadores. Na Finlândia e Dinamarca, assistentes domésticos são pagos pela municipalidade. França, Áustria, Alemanha e Holanda também custeiam parte desses serviços. No Reino Unido e Irlanda, o Estado compensa a perda de renda, e na Espanha, a Lei de Promoção da Autonomia Pessoal prevê compensação econômica para cuidadores familiares.

O cenário brasileiro e a Política Nacional do Cuidado

No Brasil, a Política Nacional do Cuidado, instituída no final de 2024, está em fase de implementação. A pesquisadora defende não apenas o reconhecimento social do trabalho do cuidado, mas também uma compensação financeira para aliviar a sobrecarga que recai sobre as mulheres. O cuidado, que envolve uma relação afetiva profunda, deveria ser reconhecido como trabalho formal, com direito a contribuições para a aposentadoria.

Metodologia e perfil das cuidadoras

A pesquisa entrevistou 18 mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e Santa Catarina, responsáveis pelo cuidado de idosos, doentes ou com deficiência. A maioria das entrevistadas são filhas (68%) ou esposas (21%) das pessoas cuidadas, com idades entre 41 e 60 anos (43%). Apesar de escolarizadas, muitas (61%) pararam de trabalhar para se dedicar integralmente ao cuidado.

Cansaço, solidão e a “Geração Sanduíche”

As cuidadoras relatam cansaço extremo, solidão e sentimento de desamparo, agravados pela falta de bonificação, previdência e, por vezes, colaboração familiar. A “Geração Sanduíche” – mulheres que conciliam trabalho formal, gestão da casa e cuidados com filhos e idosos – enfrenta uma sobrecarga ainda maior. A pesquisadora sugere que a divisão igualitária do trabalho doméstico desde a infância é crucial para mudar essa realidade cultural.

Um raio de esperança

A pesquisadora Valquiria Elita Renk ressalta a importância de educar meninos e meninas sobre a responsabilidade compartilhada no trabalho doméstico e de cuidado. Recentemente, alguns juízes brasileiros têm concedido decisões que obrigam ex-maridos a indenizar ex-esposas pelo tempo dedicado aos filhos, um pequeno avanço na direção do reconhecimento desse trabalho essencial.

Com informações da Agência Brasil