Identificado em 1999, o vírus Nipah voltou a acender o alerta das autoridades de saúde nas últimas semanas após a confirmação de novos casos na Índia. O patógeno está na lista de atenção prioritária da Organização Mundial da Saúde (OMS) por reunir três fatores críticos: alta taxa de letalidade, possibilidade de transmissão entre humanos e inexistência de vacina ou tratamento específico.

TRANSMISSÃO

O Nipah é um vírus zoonótico, capaz de passar de animais para humanos. Os principais reservatórios são morcegos frugívoros, especialmente do gênero Pteropus, mas a infecção também pode ocorrer por meio de porcos, alimentos contaminados e contato direto com pessoas infectadas.

Em surtos anteriores, a ingestão de frutas ou produtos derivados — como suco de tâmara cru — contaminados por saliva ou urina de morcegos foi apontada como uma das principais fontes. A transmissão entre humanos já foi registrada, sobretudo entre familiares, cuidadores e profissionais de saúde que tiveram contato próximo com pacientes.

SINTOMAS

A manifestação da doença varia. Parte dos infectados pode permanecer assintomática, enquanto outros evoluem rapidamente para quadros graves. Os sintomas iniciais incluem febre, dor de cabeça, dores musculares, vômitos e dor de garganta.

Com a progressão, podem surgir tontura, sonolência, alteração do nível de consciência e sinais neurológicos associados à encefalite aguda. Casos mais graves apresentam pneumonia atípica e insuficiência respiratória, incluindo síndrome do desconforto respiratório agudo.

O período de incubação costuma variar entre quatro e 14 dias, mas há registros de sintomas aparecendo até 45 dias após a infecção. A letalidade é elevada, oscilando entre 40% e 75%, conforme o surto e a capacidade de resposta do sistema de saúde local.

TRATAMENTO

Não há vacina nem medicamento específico contra o vírus Nipah. O tratamento é apenas de suporte, com foco no controle dos sintomas e no manejo das complicações respiratórias e neurológicas. Por isso, a OMS mantém o vírus entre as prioridades globais de pesquisa, ao lado de patógenos como Ebola, Zika e o causador da Covid-19.

SURTOS ANTERIORES

O primeiro grande surto ocorreu na Malásia, no fim dos anos 1990, resultando em mais de 100 mortes e no abate de cerca de 1 milhão de porcos para conter a disseminação. Casos também foram registrados em Singapura, ligados a trabalhadores expostos a animais infectados.

Desde 2001, Bangladesh concentra a maior parte dos surtos, com registros quase anuais e mais de 100 mortes acumuladas. A Índia também enfrenta episódios recorrentes, principalmente no estado de Kerala, onde estratégias como testagem em massa, rastreamento de contatos e isolamento rigoroso conseguiram conter surtos anteriores.

A OMS aponta ainda risco potencial em países como Camboja, Indonésia, Filipinas, Madagascar, Gana e Tailândia, onde já foram detectadas evidências do vírus em populações de morcegos.

O tema voltou ao centro do debate após a confirmação de novos casos no estado indiano de Bengala Ocidental. Cerca de 110 pessoas foram colocadas em quarentena após dois profissionais de saúde contraírem o vírus no início de janeiro, após contato com pacientes infectados.