
Brasil – As recentes falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) indicando o avanço simultâneo da ferrovia Ferrogrão e da rodovia BR-319 marcam uma inflexão importante no seu discurso sobre a Amazônia. Lula assumiu o terceiro mandato sob forte discurso de preservação ambiental e com promessas de reposicionar o Brasil como liderança climática global. Mas o discurso mudou a poucos meses da eleição.
As obras da Ferrogrão e da BR-319 sofrem pressão de ambientalistas e indígenas há anos, por supostamente contribuir para o aumento do desmatamento e impactar terras indígenas.
Passados pouco mais de três anos de mandato, Lula passou a defender publicamente as obras que são historicamente associadas ao agronegócio e à integração logística da região Norte.
Nesta semana, o presidente visitou o Amazonas e afirmou que pretende “destravar” a BR-319 e garantiu que fará a Ferrogrão, em uma sinalização clara de que o governo decidiu assumir politicamente projetos antes tratados com cautela pelo Palácio do Planalto.
“Ambientalmente, vai ser a estrada mais moderna do mundo. Qualquer estrangeiro que vier dar palpite na questão climática aqui, a gente vai mostrar o que fizemos”, disse Lula sobre a BR-319, em solenidade realizada no município de Iranduba (AM).
A BR-319, que conecta Manaus (AM) a Porto Velho (RO), tornou-se símbolo do debate entre integração nacional e preservação ambiental. A previsão atual do governo é de que a Parceria Público-Privada (PPP) para a reconstrução da BR-319 seja concretizada até 2028 e tenha duração de 20 anos, com um valor estimado de R$ 20 bilhões da União ao longo da execução.
A Ferrogrão, ferrovia planejada para ligar Sinop (MT) ao porto de Miritituba (PA), por sua vez, é considerada estratégica para o escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste. Ela estava travada por um julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), mas teve decisão favorável em março de 2026. Apesar do aval do STF, a ferrovia ainda depende de avanços no licenciamento ambiental e em estudos técnicos.
Em entrevista à Rede Amazônica, Lula defendeu a obra da ferrovia. “Se tem uma coisa que eu posso garantir, nós vamos fazer a Ferrogrão”, declarou.
Diante das promessas, parlamentares da oposição e da bancada do agronegócio acusam Lula de transformar a defesa da BR-319 e da Ferrogrão em estratégia eleitoral para reduzir desgastes com produtores rurais e ampliar apoio político no Norte e Centro-Oeste.
Deputados afirmam que o governo passou anos travando os projetos por pressão ambiental e ideológica e agora tenta apresentar como prioridade obras que, segundo eles, foram negligenciadas pelo próprio Palácio do Planalto.
O deputado Evair de Melo (Republicanos-ES), vice-líder da oposição, afirmou que o governo demorou para tratar projetos como a BR-319 e a Ferrogrão como prioridade nacional. “O Brasil não precisa de mais promessa reciclada em ano eleitoral, precisa de decisão, segurança jurídica e obra entregue. A BR-319 e a Ferrogrão são estruturantes para integrar o Norte ao restante do país, reduzir custo logístico, fortalecer o agro, gerar emprego e dar dignidade a quem vive isolado pela falta de infraestrutura”, declarou.
Obras antes associadas ao governo Bolsonaro passam a ser abraçadas por Lula
Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tanto a Ferrogrão quanto a BR-319 eram defendidas como prioridades de infraestrutura e soberania nacional. Ambientalistas, ONGs e parte da esquerda criticavam os projetos pelos potenciais impactos ambientais e indígenas.
O atual apoio do governo Lula aos projetos é um contraponto, em especial, aos posicionamentos adotados pela ex-ministra do Meio Ambiente, deputada Marina Silva (Rede-SP). Ela chegou a se referir à BR-319 como uma “estrada só para passear de carro”, o que causou revolta em parlamentares e moradores da região.
“Na pandemia, em 2021, caminhões carregados de oxigênio ficaram atolados em trechos não pavimentados da BR-319. Enquanto isso, pessoas morriam por falta de ar nos hospitais de Manaus. Essa estrada não é luxo. É necessidade. É direito de ir e vir. É saúde, é abastecimento, é dignidade para quem vive no Norte”, rebateu o senador Plínio Valério (PSDB-AM) à época.
Em visita às obras da BR-319, na terça-feira (26), Lula afirmou que as obras serão executadas “com responsabilidade ambiental”, mas indicou que pretende avançar com os empreendimentos.
Nos bastidores políticos, parlamentares da região Norte avaliam que o governo percebeu o custo político de manter a BR-319 parada, sobretudo no Amazonas, onde a rodovia é tratada como questão de integração nacional e desenvolvimento regional.
Na avaliação do deputado federal Nelson Barbudo (Podemos-MT), a defesa da Ferrogrão pelo governo tem relação direta com uma tentativa de aproximação com o agronegócio.
“O governo passou três anos e meio travando e cortando a liberação da Ferrogrão por motivos ambientais, usando o Ibama e o ICMBio, enquanto o Mato Grosso padecia com a total falta de infraestrutura. Passaram o tempo todo chamando o agro de fascista. Agora, como a credibilidade deles está em baixa e eles estão sentindo na pele que o povo não aceita mais esse tipo de postura, querem posar de ‘bonzinhos’ e fingir que se tornaram os ‘amores’ do agronegócio”, afirmou.
A deputada Coronel Fernanda (PL-MT) também afirmou que o governo Lula nunca tratou a Ferrogrão como prioridade estratégica. Segundo a parlamentar, o histórico de declarações do presidente contra o agronegócio ajuda a explicar a demora no avanço da obra.
Para a parlamentar, a decisão recente do STF não garante, sozinha, a execução do empreendimento.
“A recente decisão do STF não assegura, por si só, o avanço da obra, justamente porque falta vontade política do Executivo para transformar o projeto em realidade”, disse.
Ambientalistas e indígenas continuam em oposição
Apesar do novo posicionamento do governo, organizações ambientalistas e indígenas seguem criticando os projetos.
Após o julgamento no STF, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) afirmou, em suas redes sociais, que seguirá contestando a Ferrogrão. “A decisão do STF sobre o Parque Nacional do Jamanxim é grave, mas não autoriza a construção da ferrovia, não atesta sua viabilidade ambiental e não apaga as pendências que seguem travando o projeto: falta licença ambiental, falta Consulta Livre, Prévia e Informada, faltam estudos atualizados e sobram questionamentos no TCU e no Ibama”, apontou a organização.
No caso da BR-319, entidades como o Observatório BR-319 e o Observatório do Clima, afirmam que a pavimentação pode acelerar o desmatamento associado à abertura de estradas na Amazônia.
O Observatório do Clima é uma rede da sociedade civil que reúne 172 organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais. Essa rede é responsável por uma Ação Civil Pública (ACP) para anular a Licença Prévia (LP) concedida em 2022, durante o governo Bolsonaro, para a pavimentação da rodovia. Eles também pediram a anulação dos editais para a contratação de empresas responsáveis pela execução da obra, com dispensa do licenciamento ambiental.
O governo tenta responder às críticas defendendo que os projetos poderão reduzir emissões ao melhorar a logística de transporte e diminuir o fluxo de caminhões em rodovias como a BR-163.







