
As previsões de um possível super El Niño a partir do segundo semestre deste ano colocam a economia da Amazônia em estado de alerta. A preocupação está relacionada aos impactos que uma nova estiagem severa pode causar na região, principalmente sobre o transporte de mercadorias e a atividade industrial.
Projeções do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e da Defesa Civil do Amazonas indicam a possibilidade de um período de seca intenso entre o início do segundo semestre de 2026 e os primeiros meses de 2027. O cenário preocupa empresários, que já adotam medidas preventivas para reduzir possíveis prejuízos.
Um dos principais desafios está na logística. Atualmente, cerca de 95% dos insumos utilizados pelo Polo Industrial de Manaus e dos produtos fabricados na região são transportados pelos rios. Em períodos de baixa nos níveis dos rios, a navegação fica comprometida, aumentando custos e dificultando o abastecimento.
A pavimentação da BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), é apontada como uma possível alternativa para reduzir a dependência do transporte fluvial. Com 885,9 quilômetros de extensão, a estrada foi inaugurada em 1976, mas acabou abandonada devido aos altos custos de manutenção. Atualmente, grande parte do trecho permanece sem pavimentação.
A obra, porém, enfrenta uma disputa judicial envolvendo o processo de licenciamento ambiental. Entidades de defesa do meio ambiente questionam na Justiça a possibilidade de dispensa de licenciamento autorizada para a recuperação da rodovia.
Os impactos de uma estiagem severa já foram sentidos recentemente. Em 2023 e 2024, a baixa dos rios amazônicos prejudicou a navegabilidade e elevou os custos logísticos. Apenas para o setor industrial da Zona Franca de Manaus, os prejuízos adicionais com logística em 2023 foram estimados em cerca de R$ 1,4 bilhão.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, destaca que uma das principais preocupações é a chamada “taxa seca”, cobrança adicional aplicada por armadores durante períodos de restrição na navegação.
Segundo ele, caso a estiagem se confirme, empresas poderão enfrentar redução da capacidade de carga dos navios, necessidade de transbordos em portos intermediários, aumento no tempo de transporte e elevação dos custos operacionais.
Nos últimos períodos de seca, o setor industrial também registrou aumento no frete marítimo e fluvial, gastos maiores com combustível, operações extras de transferência de cargas e elevação das despesas com armazenamento.
Para evitar novos impactos, empresas da região já começaram a ajustar seus planejamentos. Entre as estratégias estão a antecipação de compras internacionais, o envio antecipado de componentes e a criação de estoques estratégicos para enfrentar um possível período crítico de estiagem.





