
Brasil – A ação da Anvisa contra lotes de produtos da Ypê, usada por bolsonaristas para acusar perseguição política à empresa, teve participação de um órgão da gestão Tarcísio de Freitas e passou por uma área da agência vinculada a um diretor indicado durante o governo Jair Bolsonaro.
A fiscalização que embasou a medida foi realizada de 27 a 30 de abril na fábrica da Química Amparo, dona da Ypê, em Amparo, no interior de São Paulo. Segundo a Anvisa, a inspeção foi feita em conjunto com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo, o CVS-SP, e a Vigilância Sanitária de Amparo.
O CVS-SP é ligado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. O governo paulista é comandado por Tarcísio, aliado político de Bolsonaro e um dos principais nomes da direita para a disputa presidencial de 2026.
A medida contra a Ypê foi publicada no Diário Oficial da União por meio da Resolução-RE nº 1.834/2026. O ato determinou recolhimento e suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso de produtos fabricados pela Química Amparo em lotes com numeração final 1.
A Fórum já havia mostrado que a Anvisa determinou o recolhimento de produtos da Ypê e que a agência apontou um quadro crítico de risco sanitário elevado na fábrica da empresa.
Ypê entrou na mira após inspeção com órgão paulista
A Anvisa afirma que a decisão foi tomada a partir de avaliação técnica de risco sanitário. Durante a inspeção, foram apontados descumprimentos em etapas críticas do processo produtivo.
Entre os problemas citados pela agência estão falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade. Segundo a Anvisa, as irregularidades comprometem requisitos de Boas Práticas de Fabricação de saneantes e indicam risco à segurança sanitária, com possibilidade de contaminação microbiológica.
A suspensão atingiu lava-louças, sabão líquido para roupas e desinfetantes da marca Ypê fabricados em Amparo. A restrição vale apenas para lotes com numeração final 1.
Anvisa tem diretor indicado por Bolsonaro na área do caso Ypê
A resolução foi publicada pela 4ª Diretoria da Anvisa, à qual está vinculada a Gerência-Geral de Inspeção e Fiscalização Sanitária. A área é responsável por ações de inspeção e fiscalização sanitária.
A 4ª Diretoria da Anvisa é comandada por Daniel Meirelles Fernandes Pereira. O mandato dele vai de 12 de agosto de 2022 a 24 de julho de 2027.
A própria Anvisa informou, em 2022, que a nomeação de Daniel Meirelles foi publicada no Diário Oficial da União em 25 de abril daquele ano. Na época, Bolsonaro ocupava a Presidência da República. Pela regra das agências reguladoras, diretores são indicados pelo presidente e passam por sabatina e aprovação no Senado.
A Fórum revelou que o diretor da Anvisa responsável pela área ligada ao caso Ypê foi indicado por Bolsonaro.
Padilha diz que há tentativa de politizar a Ypê
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou à Folha que há uma tentativa de transformar um debate técnico em disputa política no caso Ypê.
Padilha disse que a Anvisa não tem “lado partidário” e lembrou que a fiscalização envolveu a vigilância sanitária do estado de São Paulo, governado por Tarcísio, além de uma área da agência sob direção de um nome indicado no governo Bolsonaro.
A fala mira a ofensiva bolsonarista nas redes. Após a decisão da Anvisa, apoiadores de Bolsonaro passaram a defender a marca e a atacar a agência. A Fórum mostrou que Padilha reagiu a vídeos de pessoas bebendo detergente em meio à onda de desinformação.
Recurso não encerrou alerta da Anvisa
A Química Amparo apresentou recurso contra a resolução. Com isso, as ações determinadas pela Anvisa ficaram sob efeito suspensivo até julgamento pela Diretoria Colegiada.
Mesmo assim, a agência manteve a orientação para que consumidores não usem os produtos citados na resolução. Segundo a Anvisa, cabe à empresa orientar os consumidores sobre recolhimento, troca, devolução, ressarcimento ou outras providências.
Em comunicado aos consumidores, a Ypê afirmou que a decisão se refere exclusivamente a lava-roupas líquidos, lava-louças líquidos e desinfetantes com lote final 1. A empresa disse que os demais produtos não foram impactados e afirmou manter diálogo técnico com a Anvisa.
A presença do órgão paulista na fiscalização e a atuação de uma área da Anvisa vinculada a diretor indicado por Bolsonaro enfraquecem a tese de perseguição partidária. O caso foi formalizado em documento oficial, após inspeção sanitária, e envolve mais de uma esfera do poder público.






